A verdade Sobre a Parábola da Ovelha Perdida Que As Igrejas Não Ensinam
Escrita há milhares de anos, passada por algumas traduções e edições para que pudesse servir de instrumento perfeito de dominação pela igreja Cristã, talvez nunca saberemos o que Cristo realmente quis ensinar em muitos pontos da Biblia. Tomei a liberdade de dar minha interpretação sobre um deles.
Depois de deixar a igreja e de sofrer uma das maiores decepções da minha vida, eu desacreditei quase que praticamente do Cristianismo. Quase, porque apesar de conhecer toda a historia de interesses e manipulação por trás da igreja que eu pertenci, que não difere tanto da historia do Cristianismo como instituição, eu ainda acredito que Jesus foi um homem especial. Pra mim, talvez nunca saberemos quem ele foi, o que queria afinal, mas uma coisa eu sei, ele tinha muito pra ensinar ao homem.
O livro do Novo Testamento, que traz os ensinamentos de Jesus, contém muitas parábolas. Uma estratégia de ensino que consistia em usar símbolos e personagens para explicar de forma muito didática um mandamento ou ensinamento. O problema dessa forma de explicação é que ela (intencionalmente) não era muito clara, e dá até hoje margem para muitas interpretações. De fato, Cristo sendo um dos homens mais inteligentes e evoluídos que já passaram por esse planeta, não daria apenas uma interpretação para uma parábola tão simples e profunda. Acredito que ele tinha consciência que seus ensinamentos seriam atemporais, sendo aplicavéis em qualquer contexto da historia da humanidade.
Uma dessas parábolas, talvez a mais conhecida, é sobre a ovelha perdida. Ela foi contada após Cristo ser condenado por andar muito frequentemente com "pecadores" e pessoas que um homem que se intitulava santo teoricamente não deveria andar, pelo contrário, deveria manter distância. A parábola então conta sobre um pastor que tinha 100 ovelhas e perdeu 1. Abandonou todas e foi atrás da ovelha perdida. As igrejas adoram usar essa parábola para dar um tom dramático ao dizer que Deus está desesperado para que nos convertamos ou nos arrependamos e sejamos fiéis a ele (sendo fiel a igreja). Não os julgo por pensar assim, porque o livro de Mateus dá bastante margem á essa interpretação.
"Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos, que não necessitam de arrependimento."
Mas algo que Mateus talvez não tenha percebido, que eu também nao havia percebido durante os anos na igreja mas agora eu percebo bem, é que uma pessoa de fora da igreja não precisa de muito mais arrependimento que uma pessoa que vive numa bolha de padrões e costumes, que erra tambem como todo ser humano, que julga talvez muito mais que uma pessoa de fora porque tem mil e um motivos pra acreditar que é melhor do que os outros, mais especial, iluminada e mais amada por Deus. Cheia de preconceitos e intolerâncias e que nessa parábola se encaixa muito mais com os fariseus que julgavam Cristo por andar com pecadores do que com uma das 99 ovelinhas obedientes. Não que isso faça delas pessoas ruins. Mas entre crentes ativos é muito comum essa batalha interna entre ego e orgulho de um lado e humildade do outro. Isso é natural em qualquer ser humano em um contexto semelhante. Eu era assim.
Hoje, fora da religião e tendo um coração mais verdadeiramente humilde e uma visão mais aberta sobre o mundo e mais aberta para todas as pessoas, eu consigo compreender essa parábola um pouco melhor. As vezes a ovelha perdida não é um pecador que precisa voltar pro rebanho da submissão. Na época de Cristo a igreja não era sobre instituição, sobre poder, sobre fazer parte de um grupo sem poder desertar, sobre cumprir regras. Era simplesmente sobre amor e fazer o bem às outras pessoas e principalmente a si mesmo. Apenas. E talvez em nenhum momento da historia foi pregado e alimentado tanto ódio a uma velocidade tão rapida. Talvez em nenhum outro momento da nossa historia precisamos de tanto amor e principalmente união para conseguirmos contornar tantos problemas que assolam o planeta, desde de intolerância a problemas ambientais.
Dos dois livros da Biblia que contam essa parábola, apenas o de Mateus inclui palavras como pecador e arrependimento. João não cita. Há ainda um terceiro livro, chamado Livro de Tomé, que não por acaso não foi escolhido para fazer parte da coletânea que a igreja cristã usaria para servir como base de sua lei maior. Ela tem um final um pouco diferente:
"Uma delas se extraviou, e era a maior de todas. Ele deixou as noventa e nove e foi em busca daquela única até achá-la. E, depois de achá-la, lhe disse: eu te amo mais do que as noventa e nove."
Não sei porque Cristo diria que prefere a ovelha perdida do que as 99 obedientes e submissas. Mas pra Cristo talvez seja melhor uma pessoa que aceita suas fraquezas, aceita ser diferente porém ela mesma e autêntica do que ser um pessoa que vive um mundo paralelo de valores e objetivos inalcancáveis que só leva a frustração e infelicidade que só dá lugar à um ego inflado. Talvez Cristo prefira uma ovelha perdida com senso critico e disposta a ser um ser humano de verdade, podendo dessa forma progredir mais facilmente, do que um que não questiona e prefere viver num mundo de ilusões, mentiras e falsas aparências. Posso não ter esse direito de ressignificar uma parábola tão sagrada entre os cristãos. Na época da fogueira eu com certeza seria queimada por heresia por isso! Mas algo que talvez eu poderia usar como defesa, se me fosse dado esse direito, seria o próprio novo testamento e seu testemunho de que Cristo gostava de pessoas reais. Eram elas que ele gostava de ensinar, conversar e ceiar. A prostituta Maria Madalena, o coletor de impostos Mateus odiado pelo povo que mereceu até ser seu apóstolo mais tarde. Assim como Judas, que mesmo com uma índole duvidosa, ainda assim mereceu uma vaga valiosa entre os mais próximos do grande mestre.
Talvez a grande lição da parábola da ovelha que se separou das 99 é que o mundo não é um grupo de salvos e perdidos. Todos estamos juntos, no mesmo barco, no mesmo plano, aprendendo as mesmas lições, passando por experiencias semelhantes e todos temos o mesmo destino. Ninguem é melhor que ninguem. Ninguem merece o titulo de "perdido", "extraviado". Ao mesmo tempo que não merece o titulo de "mais santo" ou "sem pecados". No final, Cristo fez questão de coloca-las no mesmo grupo das 100 que ele preza. Talvez essa seja a grande lição que o cristianismo precisa pregar, o de acolher aceitando as diferenças e escolhas do outro. O de amar sem a condição de esperar que façam parte de um grupo ou ajam de tal maneira. O verdadeiro amor não impõe condições.

Comentários
Postar um comentário